A Criatividade em camadas


Prof. Enauro Borges

Houve uma fase na minha vida em que eu decidi que seria um pintor. Não um pintor de paredes, claro, mas pintor de quadros. Não quadros ridículos como um cisne pescoçudo nadando num lago bucólico, nem alguma coisa brega como uma flor gigantesca (um “copo de leite”, por exemplo) pra servir de peça decorativa em salas de madames tão bregas quanto. 

Não! Eu decidi que seria um pintor consumido e respeitado pela classe intelectual, por pessoas que realmente sabem apreciar a verdadeira arte; a arte de vanguarda, coisa requintada, aprimorada, criada só para o desfrute de mentes privilegiadas. Minha pintura seria algo avançado, inovador, revolucionário, progressista. Enfim, decidi que eu seria um artista da linhagem de um Manabu Mabe, ou de um Di Cavalcanti, ou talvez um Portinari repaginado.

Impressionado com os relatos da Semana de Arte Moderna de 1922, eu determinei seguir os passos dos mestres que se destacaram naquele episódio vanguardista.

Só me esqueci de que eu nunca estudara arte, nem jamais havia pintado sequer um quadro. Mas isso era apenas um detalhe. O que importava de fato é que eu “sabia” que tinha talento pra coisa, e ”sabia” também que me daria muito bem com a pintura desse nível.

Baseado na filosofia do “pensar grande” saí às ruas do Setor Campinas, em Goiânia, numa bela manhã de sábado, desci a Av. 24 de Outubro à procura de uma papelaria onde pudesse comprar material para pintura artística. Voltei pra casa com uma sacola de bisnagas de tinta acrílica de várias cores e carregando uma tela grande, 90 x 120cm, um troço difícil de transportar em meio ao povão que transitava pelas calçadas naquela manhã agitada.

Mas nenhuma dificuldade poderia me desanimar. Era o meu momento mágico, o dia do meu breakthrough. Momento em que eu descobrira o meu verdadeiro destino nesta terra: tornar-me um pintor criativo e famoso; ou melhor ainda: criativo, famoso e rico!

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Gastei o final de semana inteiro com o planejamento e a feitura do meu primeiro quadro. Esbocei uns rabiscos numa folha de sulfite, inicialmente, e depois arregacei as mangas e entreguei-me à ação. A ideia era produzir um abstrato à moda de Mabe. Tinha os melhores quadros dele registrados na minha mente. Era só deixar a imaginação voar e a coisa aconteceria quase que automaticamente, pensei. 

Minha expectativa era grande, e a excitação maior ainda. Trabalhei por toda tarde e noite de sábado, também no domingo todo. Na madrugada de domingo para segunda, a obra afinal ficou pronta. Uma bosta!

Lembro-me de ficar assentado de frente ao quadro por horas, em estado de choque, a boca com o gosto da decepção, tentando descobrir o que dera errado. Afinal, eu tinha certeza que faria algo genial. “Onde foi que eu errei?” Aquela foi uma das experiências mais frustrantes de toda a minha vida.

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Levou anos, e dezenas de telas mais, e muita tinta e dinheiro jogado ao vento, para que eu começasse a descobrir o que dera errado naquele fatídico final de semana em Goiânia. Mas aos poucos fui me dando conta do mecanismo envolvido no processo criativo, e as coisas começaram a clarear. Clarear e funcionar.

Hoje eu entendo que não se cria nada no nível de excelência, de imediato, no sopetão, na primeira tentativa. A boa criação é sempre feita em etapas, nunca de forma instantânea, sempre com o fator tempo envolvido. 

Para todo tipo de trabalho de criação, seja um quadro ou uma peça literária, ou mesmo um anúncio, necessário é aplicar-se o método da tentativa e erro. Não temos que ter medo de errar. Na criatividade temos que ousar, buscar o novo destemidamente. Pode dar errado, mas também pode dar certo. E  quando dá certo a conquista é grande! 


O que eu chamo de CRIATIIDAD EM CAMADAS é, pois, a metodologia pessoal que fui desenvolvendo ao longo do tempo na criação dos meus quadros. E foi agindo de acordo com essa teoria que, partindo daquele começo desastroso tornei-me um pintor de verdade em menos de um ano, requisitado e apreciado pelo mercado.

O que eu produzi naquela primeira experiência e que tanto me desapontou, era apenas a primeira camada de um quadro que poderia ter se tornado uma legítima obra de arte, não tivesse eu atirando a tela no container de lixo, na manhã da segunda-feira. 

Bastava, que eu tivesse deixado (o quadro) de lado por alguns dias, e depois, num estado emocional mais apropriado, voltasse a ele. 

Hoje eu sei que de imediato eu iria notar, como se fosse mágica, que a coisa não estava tão ruim assim... 

O segundo ponto seria entender que ele poderia ser consertado, reformulado, retocado. Acreditar que eu poderia adicionar elementos novos, dar uma nova camada por cima da primeira, aperfeiçoando aqui e ali, melhorando, emendando, reparando, modificando. Trabalharia um pouco nesta reforma, depois me afastaria e olharia o conjunto e procuraria perceber onde mais seria necessário alguma intervenção.

Gastaria um bom tempo trabalhando nele. Quando me cansasse, deixaria novamente o quadro de lado, longe do meu campo de visão, e somente voltaria a ele numa data posterior.

Depois dessa segunda camada, quando você voltasse ao trabalho, seria surpreendido com o resultado  da reforma na sua obra naquela segunda etapa. “Uaauuu...”.

Então seria a hora de se passar à terceira camada. Repetia-se o mesmo processo. Examinaria o todo, procuraria enxergar pontos que precisariam ser harmonizados com o restante, já definido e aprovado. Percebeu algum espaço vazio a ser preenchido? Preenchesse. Sentiu necessidade de mudança nalguma cor? Mudasse. Acolá pede outra demão? Desse. E assim continuaria catando e reparando as deficiências que sua percepção apontasse.

Depois descansaria novamente, o quadro e você. Não tente fazer tudo de uma vez; não funciona assim. Nossos olhos e nossa mente têm limites que precisam ser respeitados. Descansar é preciso! Tomar um café, comer um sanduíche...

 E assim continue aprimorando a sua obra, passo a passo (ou camada a camada). Seja uma composição de arte plástica, ou a elaboração de um texto literário, ou a criação de um cartaz gráfico, uma logo, ou a elaboração da capa de um livro, ou a concepção de um anúncio para jornal, revista, ou mídia eletrônica,.. 

Para todas estas coisas a CRIATIVIDADE EM CAMADAS funciona. Basta adaptar o que relatamos sobre a pintura em tela, para a peça em questão.

Acho apropriado dizer agora que não tenho a pretensão de estar sendo original com esse artigo ou de estar tentando conceber uma nova teoria relativa ao processo criativo. Não, Sou consciente que muitos profissionais da área já atuam assim há séculos. Só estou descrevendo a minha experiência pessoal, crendo que ela poderá servir de inspiração para algum principiante.

Já se disse que o trabalho de criação é composto de 10% de inspiração e 90% de transpiração. Isso é verdade. Tal fato, porém, não anula o prazer de criar, nem retira a aura romântica e o glamour que cercam a nossa área de atividade. As pessoas ainda irão se deslumbrar quando contemplarem a sua obra finalizada, considerando você um gênio ou um ser iluminado que veio de outro planeta. 

Você mesmo, depois de quatro ou cinco camadas, não acreditará que foi capaz de produzir algo tão bom.

 Clientes e diretores vão ser generosos em congratulações. A sua moral subirá na agência ou na gráfica. O seu conceito se agigantará no meio.

E os clientes voltarão mais vezes! E trarão com eles outros interessados, clientes em potencial.


Enauro Borges, professor, reside em Uberlândia, Triângulo Mineiro. Atua no campo das artes plásticas e gráficas. Divorciado, tem três filhos e dois netos. É pai da escritora Bia Borges.